
Costumo arrancar uma gargalhada aos meus amigos quando digo que sou tímida. Eles conhecem o meu lado fun, treteiro, respondão, nortenho é-lhes, por isso, difícil acreditar. Mas, a verdade é que sou mesmo tímida. Ou isso ou muito estúpida. Que outra explicação haveria para ter corado até às orelhas quando o Baía me deu dois beijinhos? ou para, a um convite do Ruzzo dos Orishas para ir aos camarins fumar um charuto, eu responder, com um sorriso parvo na cara, que não fumava? ou para ter paralisado quando o Paulinho Vilhena me apalpou o rabo, ao invés de corresponder com uma apalpação a duas mãos (porque acredito que devemos devolver em dobro o que recebemos)? Sou tímida. Não meto conversa, não faço abordagens. Fico sem jeito ao falar com estranhos, para dizer a verdade nem falo muito. Limito-me a ouvir e sorrir. O grau de timidez aumenta proporcionalmente ao grau de interesse da pessoa em questão, podendo mesmo chegar a índices adolescentes, como evitar o eye contact, corar, enrolar o cabelo nos dedos, por não saber o que fazer com as mãos. A comunicação do cérebro com o corpo desliga-se e este, habituado a obedecer, perde-se na sua liberdade, originando uma coreografia confusa. O pior, nesta aparente bipolaridade é, e pelo facto de carregares o selo de mulher bem resolvida, de bem com a vida, extrovertida, estes sinais de timidez passarem por snobismo, antipatia ou mesmo, falta de interesse.
Podia ter-te dito que, para mim, os elementos paralinguísticos são meros pormenores e que devias atentar ao que, não pronunciando, eu dizia, podia ter-te dado o livro de instruções (se não fosse ainda um manual em actualização). Mas, a verdade é que, se não tiveste a argúcia e a curiosidade para descobrir, simplesmente não estás à altura do desafio. Este é um jogo de alto risco, acessível apenas aos mais temerários...