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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Back to the basic...




Uma pessoa passa dois dias terríveis, dignos de um filme de terror de terceira categoria. Atura gente mesquinha, é obrigada a chatear-se por merdas que não interessam ao menino Jesus, entra como personagem numa novela mexicana para a qual não se inscreveu, ouve uma missa cantada do contabilista que, ainda por cima, traz uma pilha de impostos para pagar até segunda. Agastada com tudo, pára e pergunta-se a si mesma: mas esta merda vale a pena? Depois lê esta notícia e pensa: porra, isto afinal pode ser simples. 




Não sei se me conseguiria desintoxicar e abraçar este estilo de vida (quero pensar que sim). Mas, neste momento, um cenário idílico, um amor, fazer apenas o que gosto e manter-me afastada de pessoas que nada de positivo acrescentam ao mundo, parece-me muito bem... 


quarta-feira, 17 de abril de 2013

A (má) sorte da Jacinta...


A Jacinta é uma mulher da aldeia. Ar saudável, faces rosadas, corpo largo e ancas parideiras. É bonita a Jacinta no seu jeito de ser. A Jacinta é rapariga trabalheira, de famílias simples mas honradas. É uma moça casadoira mas, quis o destino, que ninguém pegasse na Jacinta. Ninguém, naquela aldeia, compreende porque é que a Jacinta não arranjou homem. Por isso a Jacinta, com os quase quarenta anos, carrega o selo de solteirona. Mas Jacinta não é não é mulher de desistir e se conformar com o destino e, vai daí procurou no mundo o que não encontrou na sua aldeia. Conheceu o Fernando no Facebook (ou no computador, como diz a sua mãe) e anda numa alegria só, de mão dada pela sua terra com o seu namorado! Dizem os vizinhos que aquela é a alegria que só um homem pode dar a uma mulher, que agora Jacinta já conhece a vida. Mas, não saiu da boca do povo a má sorte da Jacinta. É que, parece, que o Fernando é feiinho que dá dó, dizem que não teve a graça do Senhor quando nasceu. Nunca a aldeia viu pessoa tão feia e, a pobre da Jacinta merecia alguém "mais bem apessoado". Há até quem já reze para que as crianças, se um dia as houver,  não saiam ao pai! Citam o ditado popular "quem feio ama bonito lhe parece" apenas para dizer que, no caso do Fernando, até quem o ama se assusta. Os pais da Jacinta estão apreensivos, alegram-se com a felicidade da filha mas, aquele "home que é tão feio que mete medo ao susto" e que "veio lá dos computadores, que ninguém conhece", não transmite confiança. Diz o povo que "estava melhor solteira a Jacinta mas, agora que ela provou do que é bom não vai querer largar". Mas, o povo não sabe o que quer e o importante é que a Jacinta está feliz e já não morre sem "conhecer a vida"


(Esta história foi-me docemente contada pela madrinha da Jacinta hoje pela manhã e é responsável pelo sorriso que carrego desde então.)


terça-feira, 2 de abril de 2013

Retratos de família...



A D. Camila era senhora da aldeia. Esposa do senhor Rodrigues, proprietário. O sr. Rodrigues passava os dias à procura de terra para aumentar o seu espólio, cabia-lhe a ela a tarefa de governar a casa e as propriedades. Acordava cedo, despertava a sua prole e, após o pequeno almoço de cevada e pão fresco, mandava os rapazes para a empresa, já às mulheres tocava-lhes ir para a quinta dar de comer aos jornaleiros e cuidar dos trabalhos. D. Camila supervisionava as tarefas, comandava os homens, dava as ordens, tomava as decisões, pagava a jorna com o dinheiro escondido sob o avental. O senhor Rodrigues tinha ar burguês, sempre impecável no seu fato riscado, chapéu inclinado e  automóvel  lustroso. D. Camila tinha ar de mulher de trabalho, o ar das minhotas, faces rosadas, mangas arregaçadas. O senhor Rodrigues sonhava, a D. Camila talhava-lhe os sonhos na medida certa. O sr. Rodrigues idealizava, a D. Camila dava-lhe sentido. O sr. Rodrigues era o capitalismo, a D. Camila a força do trabalho. Juntos eram um quadro de perfeita harmonia. Juntos eram um.
Aquando da Grande Guerra, e com o racionamento de alimentos imposto, D. Camila contrabandeava, debaixo da sua grande saia de roda e, sentada na primeira cadeira da camioneta de que era dona, alimentos para vender aos burgueses do Porto, que sabiam que ali, no escritório da rua Camões, iam encontrar o pão, as verduras e as frutas que escasseavam no mercado. No seu traje de dama  de aspecto impecável, a posar de mulher do senhor Rodrigues, escapava à revista das autoridades. Era assim a D. Camila, uma mulher de garra, uma matriarca que geria brilhantemente a casa e as quintas, uma dama quando assim se impunha, o retrato perfeito de uma minhota de raça pura...