terça-feira, 30 de julho de 2013

heaven did not seem to be my home... *




Hoje é o aniversário de uma das minhas escritoras preferidas. Apesar de ter publicado um só romance e de o seu livro de poemas ter vendido dois míseros exemplares, a história provou que Emily Brontë tinha alma de escritora e o seu talento estava apenas deslocado no tempo, caso corriqueiro entre os génios.
A sua vida foi essencialmente marcada pela dor. A perda prematura da mãe, o internato num colégio onde duas das suas irmãs pereceram devido às condições sub-humanas a que estavam sujeitas. O alcoolismo do irmão, a sua extrema timidez que a impedia de criar laços sociais. Emily sempre viveu para dentro. O seu mundo, invisível aos olhos de quem a rodeava, era só seu. Era lá que ela criava a sua realidade. Dele apenas temos os seus poemas e uma narrativa dark que nos deixa ainda mais questões sobre quem era Emily. A solidão a que estava condenada não a impediu de criar um romance com personagens bastante complexas. Um anti herói cheio de rancor e sede de vingança, guiado por um ódio nascido no amor, Catherine, uma mulher apaixonada, livre, que não tem medo de assumir o seu amor, mesmo depois de casada, numa sociedade onde as mulheres viviam espartilhadas pelos bons costumes. Emily retratou uma história que não seria aceite pelos seus contemporâneos, mas era a história que Emily vivia dentro de si. Uma história que retrata o amor e o ódio como face da mesma moeda, onde compreendemos como é fácil odiar quem mais amamos. A forma como Emily descreve as relações humanas, a paixão e o ódio é dissonante da sua maneira de ser. Condenada à reclusão, por força da sua timidez, (que a impediu até de ser professora) não se conhece em Emily qualquer experiência amorosa, no entanto pelas suas palavras sabemos que ela percebia mais de amor que muitos que o viveram. Talvez, tenha também experimentado o nobre sentimento lá no seu mundo, onde só ela entrava.

he's more myself than I am. Whatever our souls are made of, his and mine are the same...*


* Catherine Earnshaw , in Wuthering Heights


(Incompreendido para os cânones da época, o Wuthering Heights (O Monte dos Vendavais), publicado no ano anterior à sua morte sob o pseudónimo masculino Ellis Bell, entrou para a história como um dos maiores clássicos da literatura inglesa. Tem várias versões em cinema e televisão e inspirou ainda a música Wuthering Heights da Kate Bush, o maior sucesso da cantora. A autora da saga Twilight admitiu também ser este romance a fonte de inspiração para os seus livros.
É engraçado pensar que, há dois séculos atrás, a existência de Emily, uma jovem tímida e pouco sociável, descrita como irrelevante, tenha, muitos anos depois, influenciado a vida e obra de tantos. 
Porque a nossa existência não se esgota na nossa vida. )


1 comentário:

Filomena Crochet disse...

Lembro-me que li o livro há muito tempo e gostei imenso....
obrigada por mostrar mais um pouco dessa autora...
cumprimentos de MF,