domingo, 8 de julho de 2012

A demência do destino ou, de como a vida sabe ser injusta...

O mundo soube, por estes dias, da demência de Gabriel García Marquez. Uma maleita que o impede de fazer aquilo em que é melhor: contar-nos histórias. Uma maleita que o arrasta para um mundo de solidão, um mundo que é, agora, só dele. 
García Marquez é um dos meus autores preferidos. Gosto da escrita simples e despretensiosa que o caracteriza. Uma escrita nascida no jornalismo, que torna as suas histórias simples, corridas, viciantes. Uma escrita que agarra, prende e nos arrasta para a história. Há uns anos, num aeroporto qualquer, estava eu embrenhada a ler o Notícia de um Sequestro, quando um senhor se sentou ao meu lado. Não senti a sua presença até me falar num castelhano polvilhado de Colômbia. Apresentou-se, cumprimentou-me e desculpou a sua intrusão apontado para o livro. "Sabes é que sou Colombiano e, ver alguém ler um dos nossos enquanto aguarda pelo avião, é simplesmente maravilhoso". Eu, que permanecia ainda embrenhada no mundo do Cartel de Medlin, olhei com alguma desconfiança para o homem que sorria gentilmente ao meu lado. A minha relutância durou ainda uns minutos, a fértil imaginação teimava em fazer do homem um cartelista com tendências homicidas mas, é impossível resistir à simpatia e à doçura do sotaque sul americano! Conversamos enquanto aguardamos pelo avião e depois durante a viagem. O senhor, que estaria a viver os seus 50 anos, contou-me histórias fabulosas da sua Colômbia, segredou-me que conhecia o Gabriel, a quem tratava por Señor Gabi, que era uma pessoa extraordinária. Falou-me dos almoços intermináveis que tinha com ele e das conversas que partilhavam, de como todos bebiam das suas palavras maravilhados pelo seu dom de contador de histórias. Falou-me daquele livro ser mais que uma obra literária, ser na verdade um verdadeiro acto de coragem (ou loucura), uma manifestação política de um activista mal encapotado. Falou-me da sua Colômbia e de como os cartéis da droga viciaram o país "mais belo do Mundo". Incentivou-me a descobrir a sua pátria, a respirar o seu verde e a viver as suas tradições embora, tivesse deixado o aviso:"Colombia no és un país para una chica tan hermosa conocer sola". Pois, calculo que não. Por isso, quando for à Colômbia hei-de levar o Señor Gabi debaixo do braço e deixar que a sua arte me guie e me mostre o seu paraíso. Fica a promessa...


A si, Señor Gabi, resta-me desejar que qualquer que seja a realidade onde agora habita, esta o faça feliz, apesar da incompreensão do mundo!


  Também eu ergo um manguito à puta da vida e suas injustiças...


2 comentários:

Eduardo Hürst disse...

sabe Miss S, tenho um tumor que esta a crescer aqui, em meu cérebro. Ele me dá dores malditas na cabeça, me dá as vezes uns ' brancos', fico parado, sem saber direito o que, aonde e pq. Meu maior medo desse cancro, é justamente que eu me perca das minhas memórias e fique, tal como nosso amigo Gabriel, a viver em um mundo ' pra dentro'...
abraços,
Eduardo.

Miss S disse...

Edu, não ouças os teus medos, não deixes de acreditar e ter fé. Nestes momentos é impossível aceitar e compreender o que está a acontecer mas, quando tudo passar, vais ver que tudo tem uma razão de ser... Sei que estás rodeado por gente que te adora e que todos os dias te ajuda nesta batalha tão difícil. A torcida deste lado também é grande, assim como a esperança e a fé que tudo vai correr pelo melhor.
Vamos acreditar que sim ;)

Beijinhos,
S.